domingo, 4 de outubro de 2009
A menina dos olhos de lupa
"Nunca quis ser nada. Nunca pensei no "quando crescer". Apenas cresci. Sem escolha; guiada por um caminho qualquer. Nunca passei fome graças à pensão do meu avô, ainda assim trabalhei em diversos lugares até descobrir que podia ganhar dinheiro escrevendo. Tenho alguns problemas com a inspiração, gasto muitas resmas de papel e perco muito tempo de vida buscando algo interessante que pague a comida e as contas no fim do mês. Talvez alguns me chamem de hipócrita ou mesquinha, mas minha luz e minha barriga são mais importantes que os excessos emocionais de pessoas que desconheço.
Já me apaixonei. Já vivi algo parecido com uma vida normal. Não sei precisar em que momento do passado me perdi e acabei deitada nesse colchão.
Sempre vivi na mesma casa. Mas vendi boa parte do térreo. Vivo só, é espaço demais para matéria de menos. É uma casa antiga e de andar. Hoje em dia, resta apenas um pequeno hall de entrada, a escada e o primeiro andar onde vivo. Em um dos quartos há uma janela através da qual posso ver o mundo."
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
A menina dos olhos de lupa
Não tenho recordações do que me aconteceu até meus cinco anos - também não tenho que me recorde. Se é que houve algo, tinha móbile e cheiro de cana.
Cresci numa espécie de azilo sem paredes. A pessoa mais nova, depois de mim, devia ter uns 60 anos. Não foi de todo ruim, mas a velhice por vezes é chata e mata rápido. Crianças por aqui só nas férias, por dois ou três dias. De fato, o lugar nunca foi muito atraente, mas sempre teve um cheiro adocicado sem igual.
Fui criança brincando sozinha e criando meus próprios personagens.
No meu lugar, as janelas se abriam às três da tarde, junto com as bocas futriqueiras. Minha teoria é que aquelas velhas senhoras criaram o que chamam hoje de poluição sonora e precederam qualquer noticiário jornalístico. Tudo que fosse preciso saber estava à disposição a partir das 15h, nas janelas mais próximas de você. Hoje sinto falta das vozes e risadas das velhas cruzando a rua; hoje os carros não permitem ouvir as vozes.
A vila em que vivia era um refúgio do tempo, até que a cidade cresceu e nos engoliu. Eu tinha precisamente dezesseis anos quando vi famílias inteiras mudando-se para cá. De vila, nos tornamos bairro, hoje chamam meu lugar de subúrbio. Não importa o que queiram com essas denominações, ainda gosto do nome de vila e da tranquilidade que me passa.
Minha avó morreu. Por alguma conveniência emocional genealógica, eu chorei. Não sinto falta dela, até por que não recordo da sua presença.
Não é algo tão significativo para mim, mas fui à escola. Descobri o que são livros, léguas e línguas. Aprendi o que significa platônico. Pla.tô.ni.co adj 1 Relativo à escola e filosofia de Platão. 2 Casto. 3 Ideal.
continua...
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
A menina dos olhos de lupa
"sentada frente à escrivaninha velha, na qual se encontravam pilhas de papel escrito..."
Beijos não são outdoors, nem mesmo lábios eles são mais. Beijos transformaram-se em desejos saciados. As mãos perdem o toque e o suor. As pernas esquecem a embriaguez. A mente já não espera. As lágrimas são contadas e contidas.
Parece que somente os finais é que conservam sua essência. Finais e seu amargo gosto de final. As vezes, acredito que até os finais deixaram de ser tão pontos-finais: para alguns o fim agora é um começo e tem o grato sabor do renascer. Para mim e meus olhos maculados, fim é fim e sempre guarda o dissabor das saudades, dos olhares à meio-ponto, das mãos desatadas, das canções tocando em vão, do telefone silenciado, dos longos dias chuvosos...
O inconfundível dissabor do amor; do amor-único ganhando um ponto-final.
E o que a gente faz com essa vontade de não ser?"
quarta-feira, 25 de março de 2009
A menina dos olhos de lupa
(A menina e o despertar)
"Há quanto tempo você mora aqui?"
"Orfã."
"Por que púrpura?"
Perguntas e respostas. Olhares e propostas. Dias. Noites. Manhãs e mais manhãs. Músicas e chocolates. Par e pôr-do-sol.
Algo transcendia e sugava sua alma-menina em fulgores relutantes.
Respiração ofegante. Pupílas dilatadas.
Os olhos abrem, mas parecem resistir em reviver.
Abrem e fecham diversas vezes num único instante.
Mas, não há escolha: é vida!
A menina percebe-se estranha, algo acontecera.
O corpo úmido de suor e os olhos vidrados no teto.
Ela corre as mãos pelo colchão na tentativa de reconhecer o espaço. Estava ela, deitada naquele que já não parece tão bolorento, frente a janela amarela.
O quarto agora compõem-se com guarda-roupa, escrivaninha, abajur, livros e cigarros. Do alto da janela, desce uma cortina semi-transparente com detalhes de flores e ramos.
A menina desespera-se: este não é o seu espaço, esse não é seu corpo, essa não é ela.
Ela levanta, corre até a janela e escancara a cortina:
Do outro lado da rua, a sacada é vermelha e uma senhora com seus pesados 65 anos rega pequenos vasos de orquídeas vagarosamente.
Os olhos de lupa examinam toda a rua, ponta a ponta, sacada por sacada, porta a porta, janela a janela, rosto a rosto, correndo de um lado a outro diversas vezes.
Ela tocou lentamente seu corpo: examinou a blusa branca e short jeans que vestia.
Começou a andar pela casa examinando cada cômodo, cada cheiro: a cozinha estava limpa, os livros e papéis arrumados, portas e janelas trancadas, as cartas sobre a mesa.
Tudo era confusão.
Havia ausência nas paredes, no teto, no vento, em cada fio de cabelo, nas xícaras vazias, nas fotografias e no coração pulsando lentamente dentro da menina. Uma falta maior que a capacidade de ser.
Suavemente uma música balançou a cortina da varanda tocando a menina com um afago amante, carnal, delirante e a ela percebeu vida entrar através da única fresta de lucidez que ocupava aquele espaço:
"Não há nada em ti que não reflita em mim.
Os seus olhos me escondem, não me deixam partir.
Ensaia confusões pr'eu não me esquecer de viver no seu mundo
E tentar te entender." *
Ela sorriu um prazer delicado e pungente, correu para a varanda em busca da fonte sonora: na rua, um menino sentado na calçada tocava violão e olhava para o céu, abismado com as cores celestes ao entardecer.
A menina respirou sua última esperança, ajoelhou-se, olhou o céu e chorou.
A campainha toca.
* Música: Entender você - Aguarráz
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
A menina dos olhos de lupa
O tempo passava em conta-gotas.
A menina girava. E dentro da menina, uma menina girava.
O dia estava quente. Um caleidoscópio colorido e incesssante de cores e odores girando, girando em contra-mão.
A menina dormia. E dentro da menina, uma menina dormia.
Só havia silêncio e suor.
O colchão a expulsava. A janela a prendia. O colchão a deleitava. A janela a esquecia.
Na cozinha a torneira pingava, gota a gota - como o tempo - uma sinfonia desnecessária.
A menina chorava. E dentro da menina, uma menina chorava.
A mesa, os relógios, as canetas, os papéis: tudo derretia como as figuras de Dali.
Vida? É um joguete cruel do De(u)stino.
E a menina morria. E dentro da menina, morria algo mais que apenas uma menina.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Lúgubre tic-tac
degustar a poesia, a filosifia e a ficção.
Mas parece que as semanas tornaram-se
dias curtos e sem luz.
Queria eu, construir castelos na praia
e deixar as ondas derrubarem meus sonhos de areia...
Mas os dias agora parecem apenas horas desenfreadas
em relógios tortos.
Queria correr tardes pelo parque;
cambalear, equilibrista, no meio-fio branco,
de braços abertos, a alcançar o céu com a ponta dos dedos.
Mas parece que as horas são frações cortadas
de segundos e milésimos incessantes e inférteis.
Eu queria, queria mesmo
Fazer um filme,
um filho
e um pôr-do-sol.
Mas parece que o tempo
acabou.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Grilos
era o septuagésimo nono.
Por favor, não me acusem.
À noite, é sempre triste que os grilos cantem.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Alto-falante
gritando alto teu nome entre os varais
para que corram as senhoras
e suas roupas de florais
para que se abram as janelas
a ver teu semblante
para que exalem sorrisos
ao invés de alvejante.
Lavo as ruas - sujas ruas -
com teu nome
para embeber a minha vida
e matar a minha fome
para brotar do negro asfalto
o calor da tua presença
para tirar dessa cidade
esse gosto de sentença.
Te disperso em cada esquina
para que estejas lá
a me ver menina
para que estejas lá
quando eu passe
para que enlace, transpasse,
me escasse.
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Alguma coisa
A mesma coisa
Em tons anis
Em tons pastéis
Navega em mim
Navega a mil
Cantando alto em meus bordéis
Carrego sons
Carrego sóis
Além de mim
Aquém de nós.
terça-feira, 10 de junho de 2008
A menina dos olhos de lupa
e A menina e a sacada púrpura I e II e III
A menina e a sacada púrpura IV
O dia parecia não querer passar.
O tempo estava ansioso, assistindo, como um espectador fascinado,
a menina e o homem, ali conversando singelos e complacentes. Felizes.
O mundo paralisou e eles nem notaram..
- Especialidade? - disse, já empolgada, a menina.
- Não ter nenhuma.
A menina sorriu, algo lhe parecia muito familiar naquele rapaz.
- Você me parece tão conhecido,
mas não recordo de já ter cruzado com você alguma vez. - falou a menina, espiando dentro do rapaz.
- Talvez, sim. Qual a sua especialidade?
- Visual. E não é oftalmológica!
- É tipo, psico-ótica, né?
- Exatamente! - a menina sentiu-se tão bem, como há muito não sentia.
Alguém além de folhas de papel parecia entendê-la.
- Quem está analisando quem agora?- disse o rapaz, com um ar de ironia.
Um turbilhão de lembranças rondou a mente dos olhos de lupa.
Mas não podia ser! Não deveria! Não, não..
Logo, o rapaz olhou a menina, dentro de seus olhos, e disse:
- Sabe, eu menti. Eu tenho uma especialidade, mas ela me é alheia. Me formei, abri meu consultório: eu era analista. Até um dia, uma menina surgir em minha sala, como perdida. Uma perdida muito bem achada. Não sei se a menina havia ido lá pra saber de si, sei apenas que a partir daquele dia é que passei a saber de mim. Ela mudou tudo. Tudo em mim.
E, sabe, eu teria passado o resto da minha vida procurando ela, se não fosse tão fácil encontrá-la. Por que desde aquele dia, a única especialidade da minha vida, e a qual eu me dediquei e dedico totalmente, é poder sentir a menina que um dia tocou, tão certa e tão ríspida, o meu ser, e me deu razão de sê-lo.
Ali, na varanda, a terra parou de girar, as pessoas estagnaram,
o sol escondeu-se atrás de nuvens frias..
Não havia som, não havia luz, não havia tempo.
Não cabia na vida a imensidão daquele momento.
A menina estava estagnada. Abismada com a roda-viva da vida.
Tudo apresentava-se surreal demais.
O silêncio mais assustador da sua vida tornara-se real.
O olhos de lupa não conseguiam apalpar a existência..
O homem sorria. Um sorriso viril.
Um ar cruel (é, aquele mesmo de quem sabe o que quer!).
Quebrando a ordem universal, o homem cantou:
"Vai ver o acaso entregou alguém pra lhe dizer o que qualquer dirá.."
Uma lágrima fugitiva e sorrateira, correu a face da menina..
E o homem ali, parado, sorrindo para ela..
"Parece que o amor chegou aí, eu não estava lá, mas eu vi.." ♪
domingo, 8 de junho de 2008
A menina dos olhos de lupa
O homem da sacada púrpura observou a menina dos pés à cabeça, olhou novamente em seus olhos e disse:
- Você fica bem melhor de seda branca e azul.
Quebrou-se o gelo.
A menina sorriu, singela.
- Posso entrar?
- Claro..
Subiram. O menino-homem espiou todo o espaço, sentiu os cheiros...
Enquanto a menina tentava disfarçar a bagunça.
Após analisar o local, ele sorriu e exclamou:
- Pensei que não existisse alguém vivendo pior que eu!
Ela sorriu, extremamente - e duplamente - envergonhada.
Pensava consigo na besteira que acabara de fazer:
"Estúpida, primeiro você abre as portas tão fácil, segundo exibe essa grande imundice!
Grande tola!"
Foram para a varanda.
- Desde quando você mora aqui? - disse ele.
- Desde sempre.
- Eu estou aqui há três anos.. - falou o rapaz, apreciando a vista da rua.
- É, eu sei. - disse a menina
Silêncio.
O homem espiava o mundo ao redor.
O olhos de lupa sentiam medo, medo apenas.
- Você vive sozinha desde sempre também? - disse o homem, olhando para sua casa, do outro lado da rua.
- Talvez. - respondeu fria; temente.
Mais silêncio, mais apreciação e mais medo.
- Você não vai perguntar meu nome? Minha idade? Não vai me dizer coisas bonitas e depois tentar me levar pra cama? - disse a menina frenética; a respiração ofegante; os olhos pareciam querer tomar vida, abertos, ávidos; o corpo tremia, tremia, tremia.
- Não. - respondeu convicto, com os olhos dentro dos olhos de lupa.
A menina se desarmou, e disse complacente:
- Tá.
- Pra mim, você parece uma menina onde uma mulher se perdeu. parece ter uns mil anos - pesados anos - dentro destes olhos profundos, que te suportam e são o que de melhor tens. Também não sou rapaz de dizer coisas bonitas, nem tentarei te levar pra cama, até por que você não tem uma. - disse o rapaz. Inerte e certo de cada letra que dissera.
A menina sorria, num quase desespero.
Jamais alguém havia lhe analisado, tão de perto, tão certo e inabalável.
- Pais? - disse ele.
- Orfã.
- De pai e mãe? - disse, olhando para a menina com certa piedade.
- Sim. - respondeu calmamente, a menina.
- Sinto muito... - falou envergonhao.
- Eu também.
O homem silenciou. Incomodou-se com sua pergunta indiscreta, e não se atrevia a dizer uma palavra sequer.
- Filhos? - perguntou a menina.
- Não. - disse o rapaz, surpreso com a atitude dela.
- Amantes? - perguntou o homem.
- Tive dois.
- Eu tive oito.
- Você ama demais, meu caro.
- É a minha demasiada humanidade.
- Por quê púrpura? - questionou a menina.
- Por que me dá uma condição de realeza, não acha? - disse sorrindo, o nobre rapaz.
- Acho, acho sim. - sorriu também, cúmplice, a menina.
Horas passaram. E os dois sorriam, companheiros desconhecidos, numa varanda pequena e comum...
quarta-feira, 4 de junho de 2008
A menina dos olhos de lupa

A menina e a Sacada Púrpura II
Leia A menina e a Sacada Púrpura
"Com o cessar da chuva, restaram os olhares perdidos
na imensidão existencial.
Tempo algum apagaria o primeiro olhar sem dor,
tempo algum apagaria aquele instante:
Quatro olhos complacentes dividindo o mesmo gozo.."
A menina sentou na janela amarela.
Do outro lado da rua o homem permanece escorado no gradeado de sua sacada púrpura,
firme, olhando dentro dos olhos de lupa.
O corpo da menina estremece.
Era a primeira vez que alguém a olhava tão intensamente (e de forma tão encantadora).
O homem sorri, dá as costas, fecha a porta, e o mundo se enche de solidão e claridade.
O sol desponta atrás das nuvens retomando o seu império.
A menina desce da janela. Exita. Olha para trás, para se certificar da partida. Recolhe os papéis e livros, o cigarro morto, colocando-o no cinzeiro, e em seguida os dois sobre os livros, na outra mão a caneca..
No quarto restam a janela amarela e a poltrona velha..
Percorre o corredor e desce a escadaria, com ar de quem encara a morbidez da vida:
É hora de comer seu dia feijão-com-arroz.
Repetir a mesma solidão e unir a novos pensamentos, para acabar no colchão velho e bolorento da sala, fumando cigarro e tomando vinho barato.
Passa pela cozinha e abandona a caneca, logo depois os papéis, livros e o cinzeiro, na mesa..
Sobre a mesa, uma fotografia antiga que a menina sempre evitava.
Troca de roupa. De moletom cinza e meias brancas, vagueia pela casa até parar em sua estação:
sentada frente à pilha de folhas sobre a mesa, com o lápis passeando nas mãos, e o olhar na imensidão de sua parede amarelada pelo tempo..
A campainha toca.
Um frio delicioso e assustador corre a coluna da menina.
Ninguém, nunca, tocara a campainha - exceto os carteiros importunos.
Ela respira a tensão por alguns instantes, levanta e vai ao encontro da porta:
corre as escadas, pára diante da porta, segura a maçaneta por alguns segundos, até que finalmente abre.
Parado à sua frente, com um sorriso estonteante e os olhos brilhantes, o homem da sacada púrpura - que ali, tão de perto, parecia tão menino.
A menina congelou. A boca entre aberta, os olhos desacreditados, as pernas tremiam, bambas, causando uma instabilidade constrangedora..
sexta-feira, 30 de maio de 2008
o tempo, folha de outono,
caiu sorrateiro dos galhos meus
Me fiz palavras e ilusão
nem medos
nem sonhos
nem desejos
Era domingo.
Frio e chuva
batendo na minha janela
Chovia toda cidade;
todo o jardim;
Chovia tudo
em mim.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
As letras negam dança com o papel.
A poesia foi embora.
Me deixou:
caixão e misericórdia.
- Não a julgue assim, pequena.
A poesia sempre salta.
Faltam palavras
nas minhas linhas.
Rimas pequenas
Versos fracos.
Não cabe em mim aquele sol que não raiou.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
1° de maio
homem meu,
vou dizer o quanto te amo.
Se foi ilusão
ou choro, não importa.
Hoje, vou dizer
o quanto te amo.
Se o poema fosse canção
e o meu canto
não fosse essa cólera suicida
Te dirias, amado meu,
que amor maior
não encontrarás nesta vida.
-
Aonde estás, amor?
Poupou-me a companhia
no café e no jantar
Do almoço, fiz varanda
- vi a tarde passar -
Poupou-me da presença
de te amar?
Se vais matar,
mata-me
- deixei o amor sobreviver -
Amantes precisarão
pra viver
desse amor que um dia
entreguei à você.
-
De ti, não quero apenas
o riso e o abraço;
o berço e os bons tratos
Te quero inteiro:
corte,
sangue
e lágrima
Te quero problema
e desespero
Te quero desespero
e saudade
Te quero frágil;
impotente; solidão
Te quero menino
pra descansar em mim:
Fortaleza e cais.
-
Vem, pequeno
descansar, em minh'alma mundana,
toda tua fúria
de homem perdido
Vem, caber-me nos braços;
Fazer abrigo dos abraços
Unir pequenos laços
e fazer um lar.
Você me daria a mão?
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Rapidinhas
os meus dias;
o eco de meus sons;
fizeram de meus sonhos
pombas imprudentes
(retornando a pombais
que não são meus).
Letras, fizeram
de meu grito, carbono;
de minhas preces, manchas
Letras e palavras
fizeram de mim poeta.
A poesia fez de mim
um suicida
desarmado.
-
Virou silêncio
o que antes era lar.
Onde pus minha caneca,
o café jamais chegou.
Choveu todo o dia,
e mesmo assim nada lavou.
Eu cuidei de secar
o que a água inundou.
Deixei no caminho de Pasárgada
o lar,
o homem,
o ar,
Por que esse mundo-moinho
talhou meu caminho
sem me consultar.
quarta-feira, 26 de março de 2008
A menina dos olhos de lupa
É segunda-feira. Dia mais chato não há.
O céu carrega o peso das nuvens cinzas e cheias.
Na velha casa, no quarto escuro, diante da janela amarela, repousa numa poltrona velha um semblante feminino de solidão. Ao chão, uma caneca de café frio, pontas de cigarro no cinzeiro, livros, folhas e lápis.
Um cigarro queima entre os dedos, enquanto os pés cruzam-se, repousando na janela.
A menina está longe, o olhar perdido na infinda imensidão celeste.
Nem mesmo o barulho da rua; nem o telefone incessante; nem as primeiras gotas de chuva; nem o vento frio assanhando-lhe os pêlos, nada movimenta seu olhar.
O céu escurece a cada instante, apagando o sol brilhante do meio dia.
As gotas de chuva vêm numerosas..
A menina levanta da poltrona, encharcada das gotas que lhe banhavam invadindo a casa pela janela.
De pé, com as mãos apoiadas sobre a base da grande janela, mirando o céu com seu olhar 'luparino', gritou com uma autoridade divina:
- Achei que não virias!
O mundo fez-se de um silêncio perturbador. Enquanto a chuva seguia incessante, forte, pungente..
A menina, exposta na janela, sentia a chuva tocar a sua fronte e correr seu corpo..
- Vem, vem! Eu sei que você tem saudade, sei que você tem vontade de mim! - Berrou em delírios lancinantes.
O vestido de seda branca e azul gruda em seu corpo, em cada canto mal formado de sua matéria.
A menina pôs-se de pé sobre a janela, sustentando as mãos atrás, nas bordas.
Pondo o rosto e metade do busto e abdomen pra fora, beija o vento que lhe balança o vestido.
A existência se encheu de uma magia harmônica e miticamente surpreendente.
Os olhos de lupa carregavam um sorriso aberto, grande, infindável..
Canta, numa oração divina, como Iemanjá em meio às águas torrentes:
- "E a chuva nunca pára de cantar, a chuva nunca pára de descer.
E a chuva vem pequena e grandiosa, acalenta ou revira o nosso lar."
Do outro lado da rua, duma sacada púrpura, surge uma voz masculina, de um recanto imperceptível..
- "A chuva com o seu sonho de água, vem acesa pra lavar o que passou.." - cantou ardente a voz.
A menina respirou a voz como uma resposta dos céus, e prosseguiu seu transe inundante.
O vento, a chuva e os sons faziam música incomum.
Os olhos da menina, despertando, cruzam-se com um olhar plangente do outro lado da rua. E o momento fixa, com sorrisos correspondidos e almas compartilhadas. O mundo é puro encanto.
Enquanto dentro do quarto as gotas de chuva apagam o cigarro ao chão, morrendo na solidão...
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Rapidinhas
numa linha reta
Não há retorno
nem manobras
Há apenas
eu
o caminho
você
e 700 km de distância
-
Não há flores
nos jarros
nem nos jardins.
A chuva não vem.
Meu sol escureceu.
Há apenas nuvens
correndo o céu
emudecendo os dias
pesando sobre as cabeças
correm, rastejam, desenham
figuras tolas
para Gabriel sorrir.
Deitado, olhando para mim
Ieiazel, diz:
"Dorme, Maria, que esse mundo é só agonia,
não é lugar para ti."
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
A menina dos olhos de lupa
A verdade é realmente assombrosa.
O mundo é verdadeiramente assombroso.
Lá, em baixo, na rua, a menina via uma passeata de fantasias reais.
Bailarinas de pernas de chumbo;
Soldados de cifre: Unicórnios.
Em carros e abóboras:
Princesas ao espelho;
Megeras em saltinhos cristalinos.
Homens que arrancam corações,
tinham maçãs na mãos.
Era desfile sem data comemorativa.
Alegorias. Fantasias. Bonecos gigantes. Sorrisos atentos.
Em câmera lenta, jaz iam cruzando a avenida....
E bastou os cílios tocarem a pele
para que quebrasse o encanto.
Acabou o conto de fadas.
O cisne virou praga.
Voltaram, meros humanos,
à sua luta vil e vã.
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Curtas (ou não)
minha mãe me chama:
- Tá pronto o almoço!
Do quarto
eu reclamo:
- É hora do almoço...
Da rua
uma criança emociona:
- É dia de almoço!
-
Comi o pão-do-dia
Vomitei minha poesia.
-
Duas faces
a que chora
e uma que sorri
Duas hastes
a que pende
e uma que fixa
Ambas bailam
num balé
esquisito
dentro de mim.
-
(De quando eu ainda datava o que escrevia)
Incompreendido
o anjo se foi
A porta que se abre
fecha diante destes olhos
A que pertence agora
essa alma?
O azilo
fechou.
10/01/06
-
No silêncio
calei as vozes
Tentei, então,
mentir os olhares
Acabei cega
muda e sozinha
03/05/06
-
Sou um anjo
alma vã
e corpo enfermo
Passeando a minha loucura
entre os becos e quintais
E nos abismos silenciosos
e nas primaveras românticas.
Ecos, reflexos, pedaços completos.
Amor.
17/08/05
-
O papel
A tinta
O vinho
O cinzel
Se fundem
na minha dança combatente
Os instintos e desejos
já ferem o meu superego
Me ponho em conflito
Em colapso.
25/10/05
-
Quem virá e dirá
que faço sempre tudo errado?
Vai se perder
Eu já o sei
e faria tudo novamente
somente para ver
o sangue que circula
nestas veias
parar
entre um susto e
o meio-dia.
22/11/05
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
A menina dos olhos de lupa
Havia dias, perdidos nas horas, desencaixados do tempo, que a menina permanecia em casa
Trancafiando o mundo por trás das janelas
No pé da porta, junto ao pó, acumulavam-se as cartas e contas do mês.
O olho de lupa estava lá, sentada frente à escrivaninha velha, na qual se encontravam pilhas de papel escrito, agendas, canetas e um calendário do ano passado..
Da cozinha, vinha um cheiro acre de bolor orgânico
Pelas frestas das janelas amarelas despontava, singela, a luz do sol
A menina permanecia lá, instável, estática, estátua.
Os olhos mais pesados do que estiveram ontem,
fixos, mirados na parede à sua frente
E faziam-se horas assim...
Pensava.
em quê?
Sonhava, talvez!
Pensava e sonhava com sua vida mesquinha; pequena
Sua vida grão-de-areia.
No relógio, na parede, batiam os ponteiros como numa luta sussurrante
O tic-tac anunciava, a cada segundo, a batalha perdida contra o gigante do tempo...
Despertae!
A menina mudou a feição,
olhou vagarosamente o ambiente,
respirou cada cheiro..
Abriu a janela:
cegou, por um instante, os olhos.
Pôs o prato à mesa, e começou a comer seu dia Feijão-com-arroz.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
A menina dos olhos de lupa
O dia amanhecera deliciosamente nublado.
A menina permanecera ali, na varanda, deslumbrando a manhã úmida:
Os homens de paletó, com sua maleta numa mão e o guarda-chuva na outra;
Os preguiçosos transeuntes desconhecidos, bocejavam. Desejando ardilosamente ter permanecido na cama;
As crianças encasacadas, inchadas de sono, saiam rumo à escola;
As donas-de-casa, abriam as velhas sacadas, mais tarde que o comum. Permaneciam, velhos zangões, observando o céu que catarolava uma canção de chuva. Então, as senhoras cerravam as janelas e colocavam panos-de-chão nas frestas inferiores das janelas, afim de que a água não entrasse.
E a menina? Ela, saborosamente, sorria. Abismada com a "roda-viva" da vida e os deliciosos acontecimentos sob a sua sacada.
Uma branca nuvem corrompendo o céu...
Às 15:30, a chuva caiu. Entre roncos torrentes e ventos velozes.
A menina saiu da mesa do ofício, e correu para fechar as janelas. Parou. Observou as gotas de chuva batendo, insistentes, no vidro, querendo entrar.
As pessoas, correndo na rua, como formigas perdidas em busca do formigueiro.
Em minutos a rua estava vazia. Completamente vazia.
Aqueles olhos, de lupa finíssima e aguçada, tiveram uma vontade - arrebatadora - de sentir a chuva.
Tirou o casaco, os chinelos, as meias, e correu as escadas..
De pés descalços, com a velha camisa regata branca e a calça jeans desbotada, a menina abriu a porta, e foi como uma chegada aos céus.
Sozinha, a Menina corria, livre, pelo asfalto.
A longa avenida parecia pequenino salão, debaixo dos seus pés.
Bailava, bailarina, a bela menina debaixo da água forte; instintiva.
A chuva, corria pelo corpo; Acariciando, beijando, mãos, bocas...
E a menina sorria, sorria, sorria.
Alegre.
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
A menina dos olhos de lupa
Ela sentou no divã.
A sala era verde-bebê.
O ambiente era rústico; os móveis, todos madeira velha e mal envernizada.
Tocava um "Harmonium Andino".
Um jaleco alto, de olhos profundos, facilmente desvendáveis, e rosto fechado, entrou na sala.
Solicitou, com olhar conformado, que a menina ficasse a vontade, pressionando-lhe levemente os ombros, para que deitasse no divã.
A menina, em desconforto, obedeceu.
O jaleco, vestido de um branco paz sem utilidade, a não ser dá-lhe a condição médica, sentou-se numa cadeira de couro, atrás do divã; Na escrivaninha de madeira enrustida, pegou um bloco de notas e uma caneta esferogáfica preta.
Dez minutos de silêncio..........
- Eu não tenho todo o dia. - Retrucou o jaleco.
- Eu tenho.
2 minutos de incomodo silêncio..
- O que você espera dessa consulta?
- Um laudo.
- Huuumm...
- O que te trouxe aqui?
- A curiosidade.
- Achei que fossem os problemas...
- Não, não. Meus problemas eu já conheço, de longa data.
- Então...., quais os seus problemas?
- Visuais, meu caro.
O jaleco estava inquieto; Mexia, incessantemente, os pés.
As pernas cruzadas; Impaciente.
- Eu pareço oftalmologista?
- Na verdade, você me parece um jalecozinho rude, que não suporta mais o que faz; Não aguenta mais os velhos pacientes, e os seus velhos, mesmos, problemas insolucionáveis. E, de alguma forma estúpida, você se sente fadado a esta realidade, por que pensa não saber fazer nada além disso; Você não é capaz de ver, nem sentir que sabe ser bem maior.
O homem e seu jaleco estremeceram junto ao coração. Ele respirava ofegante; Sorria, descontroladamente, em desespero.
A menina, estava serena. Cruel. Parada, olhando para o teto, sobre o divã negro e macio moldando-se ao seu corpo.
- Quem está dando o laudo a quem? - Disse o jaleco, em um desdém desesperado.
- Ninguém.
- Você está me analisando, menina?
- Não. Eu estou enxergando você.
Um silêncio aterrorizante tomou a sala. O homem-jaleco parecia ter esvaziado.
A menina prosseguia estática; imóvel.
Dos olhos profundos e ríspidos uma lágrima, como fugitiva, surgiu. De repente, a sala fez-se de um pranto triste e revelador.
O homem, com a face inundada, esboçou, rapidamente, no bloco de notas. Jogou o jaleco ao chão, como um animal que deixava a velha pele. Destacou a folha do bloco, e segurou-a tão firmemente que ouvia-se o amassar do papel. Entregou à menina, como quem deixa a vida, resistiu um pouco, pressionando, ofegante, a mão da menina.
Ela, dura, sentiu o calor daquele homem que acabava de ceder à vida.
Os olhos vermelhos, cruzaram com os olhos de lupa, e o instante cicatrizara no coração do homem.
Ele, assim como um anjo que acaba de descobrir o poder das asas, deixa a sala; Batendo a porta, deixando uma certeza de jamais voltar ali.
A menina, no divã, sorriu, num delicioso (e cruel) desdém.
Leu, então, as palavras no papel amassado e ainda quente:

- "Vai ver o acaso entregou alguém pra lher dizer,
o que qualquer dirá." - Disse a menina, sorrindo, prestes a chorar.
Levantou-se, guardou o papel, e deixou a sala escura, trancada, com o jaleco estirado, frio, lá dentro.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
A menina dos olhos de lupa
A manhã desperta úmida e fria.
O sol, ainda atrás das cândidas cobertas, acorda a Menina no velho colchão descoberto, no meio da sala vazia, em frente à TV ligada.
Os olhos abriram displicentemente.
O ar úmido que penetrava a janela semi aberta e balançava as cortinas encardidas, irritava seu nariz, e ela, inconscientemente, espirrava.
Era mais uma manhã de domingo, desses domingos sem fim nem começo. Aqueles domingos frios e tristes, em que se quer ficar deitado, embrulhado, dormindo, até que o dia acabe, para despertar corajoso da simples certeza de não ser mais domingo.
Mas que se há de fazer deitado um dia inteiro num colchão velho e bolorento; numa sala desmobilada; frente a um TV desregrada; debaixo de finas cobertas?
Para a Menina (e metade dos humanos que vivem o domingo morto) não há fuga. Ou ali, pensando e remoendo o que se viu e viveu, ou na rua, vendo mais coisas que depois, mais cedo ou mais tarde,virarão pensamentos dolorosos de domingo...
Ela desperta preguiçosa, senta no colchão cobrindo, sem perceber, as pernas com o fino lençol; olha a TV e o barulho irritante das corridas de formula um e seus narradores alucinados;
Sente o o vento frio adentrar pela janela, sacudindo as velhas cortinas; Acende o cigarro amassado que estava no chão, e deixa o domingo queimar em pensamentos, como queima o tabaco no cigarro acesso.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Embaixo da cama
E ele bate como rufa o tambor do samba faceiro.
Me acorda, quando bate acelerado,
parecendo que sofre ou que chora.
De quem será, Meu Deus, esse coração que bate embaixo da cama?!
Será do monstro ou do nobre cavalheiro?
Sei que não me deixa dormir, e passo noites ouvindo
esse coração batendo, rufando, dentro do meu colchão.
sábado, 6 de outubro de 2007
Fardo
Do domingo morto
E destas rimas sem solução
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
A menina dos olhos de lupa
- Feia!
(estilhaços ao chão,
sangue nas mãos.
Lágrimas.)
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
A menina dos olhos de lupa
Aquela de olhos demais passa noites com Vinicius de Moraes
gotejando em seu ouvido;
Nas mãos: Fernando Pessoa.Nos gélidos pés: Mário Quintana.
Os poetas tomam-na completamente. Levitam-na. Bailam em salões anis.
Aquecem os seus pés. Entorpecem sua alma. Lambem suas orelhas.
Os olhos da menina brilham como a estrela mais cintilante do céu.
Goza de prazeres incomuns.
Transborda em mundos sutis e ardilosos.
Flutua no ar, como mágica..Magia poética.
Sonetos e temas e poemas. O mundo se fez de prazer.
Ardia lentamente em sua alma o desejo de transcender a pele..
Porém, os poetas fartam-se.
Abruptamente a menina cai...
Vinicius toca a ultima canção e se vai. Vai com o uísque e o violão.
O Pessoa dá lições e se cala. Ele tem outras mãos para habitar.
Mário foi cuidar dos jardins.Cansou-se dos pés frios..
Ele estava a espera das borboletas.
A verdade é que mesmo após tantos gozares, a menina prosseguia insatisfeita.
Os poetas tomaram-lhe o corpo e a alma,
mas interromperam o coito, por não obterem o principal: Sua mente e coração.
Pobres Poetas!
Renderão canções e poesias à menina incauta, intransponível, e de olhos demais.
Inconformados, dirão que a menina não sabe amar nem aprecia o prazer.
Tolos Poetas!
Mal sabem eles que não há poesia mais linda e amor maior que o que habita aquele pequeno coração e cria aquela mente enaltecida.
É provável, que se tivessem adiantado-se, em outro tempo, tomariam a menina completamente.
No entanto, agora, a menina já se entregara.
A quem os nobres cavaleiros chamam Marvin, o rapaz da rima perfeita, dera a mente e o coração.
Pobre menina! Nem anseia a devolução.
sábado, 25 de agosto de 2007
Menina dos olhos de lupa
Ah! Se meus olhos te encantassem você voltaria pra mim?
Se tu existiu e foi minha força, por que me abandonaste?
Ah! Se meus olhos não te cortassem você voltaria pra mim?
Eu não me importo de onde você vem, desde que você venha para mim.
-
A menina e a existência
Talvez não fosse eu aquele rosto sem face no espelho.
Talvez não fosse eu na rua gritando em silêncio.
Talvez não fosse eu chorando sozinha na praça, sem pensar que o mundo olhava só pra mim.
Talvez não.
Talvez não fosse eu perdida na casa escura, enchendo o travesseiro com minhas dores.
Talvez não fosse eu, e fosse as almas perdidas tomando conta de mim.
Talvez não fosse eu fingindo ser quem já sou.
Talvez não fosse, e fosse, enfim, a solidão tomando partido em mim.
Talvez fosse eu, e eu não sabia.
continua...
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
A menina dos olhos de lupa
Olhando para a menina.
Dos olhos cheios de lágrimas, fez-se a bruma do dia.
A menina está tão cansada, que mal suporta abrir os olhos.
As ruas não merecem o seu olhar.
Os homens não merecem seu perdão.
Tão pobre menina de olhos demais!
Não te fartas desta vida?
Beijaste a morte. Profana!
Pobre menina dos olhos!
Almoça com baratas mortas.
E deixa a tv ligada, pra não se sentir tão só.
Pobre menina!
Sempre busca alguém... e jamais encontra.
Nas pessoas? Peles, colos, sexo, bocas.
Bocas demais! Que falam ainda mais
e nada dizem.
-
Sonhando pela menina.
Se te fosse um pouco menos moça, e a alma não te fosse tão velha.
Se não tivesse esse cansaço infidável..
Se não tivesse esses olhos que te carregam..
Ah! Se não os tivesse..talvez fosse bem melhor.
Mas que iria te carregar
Se tu és tristeza e peso?!
És tão só, e tão pequena..
Teus olhos pesam no meu espelho.
Quem sabe, então, te chamasse Lia e rimasse com via
mais direta ao coração..
Quem sabe, então, te chamasse Lia e rimasse com Marvin
e então os dois seriam canção..
Quem sabe, então, te chamasse Marvin e fosses homem que rimasse com Lia
que seriam dois. E seriam um.
Médios em tudo. Em quase tudo.
continua...
domingo, 5 de agosto de 2007
A menina dos olhos de lupa
Ela acorda, e nem parece que vive. Respira cansada e afaga os cabelos como forma de esvaziar a mente. Resiste ao sono, e levanta lentamente.
Não há nada de novo.
Banha-se, então, de anseios e medos. Carrega a mochila e prepara seu dia. Caminha pela rua como quem passa fechando portas e carregando nuvens cinzas, prontas para chover. Seus olhos vagam por entre as pessoas, os animais e os lugares.
As bocas, incansáveis, chamam seu nome. Os outdoors exclamam, em propaganda vazia, seu nome, e ela farta-se de si.
Lembra-se da sua nudez diante do espelho, dos seus 'culotes' mal desenhados, seus ombros largos, suas coxas tão largas, busto sutil e braços fortes. Fizeram-lhe em tudo errada, mas deram-lhe dois olhos, e compensaram todos os seus defeitos. Olhos que enxergam. Olhos de raio-x. Ela, e seus olhos de lupa.
continua..
domingo, 13 de maio de 2007
Plaqueta
Possivelmente, meu primeiro conto.
As viúvas choram, Ou silenciam.
Os transeuntes parecem nem perceber a presença do corpo.
E o corpo, está ali. Estático. Frio. Inerente.
As pessoas ao redor, murmurejam:
-- Descansou, descansou.
Como se um corpo morto, sem vida, pudesse sentir algo.
A alma, esta também não descansa, começa agora a vida eterna.
Pela primeira vez, sinto a morte tão perto de mim, tão perto que posso senti-la. Ela não cheira mal, nem assusta. A morte e sua roupa de cetim. O seu beijo estranho. De repente, amo-a e detesto-a.
Farto-me de respirar este ar mórbido, de ver as janelas abertas, e a poltrona vazia, vazia, vazia...
As horas parecem não passar, mas mesmo assim o dia finda. A noite chega, à noite e sua lua de prata. Lua que brilha contida, calada em si.
A chuva parece vir, e eu penso como seria se viesse. A tempestade que não vem, me distrai. Gosto tanto dos pingos da chuva. Dos relâmpagos e dos trovões.
Calada em mim, com suspiros leves, e pequenos sorrisos cordiais.
As lembranças, vadeiam, rodopiam, bamboleiam, dançam em mim.
Cada pessoa ali, parada, imersa em sua própria arrogância, esperando um pouco de atenção.
As palavras hoje não têm sentido. Hoje a tristeza não é passageira. O hoje poderia ser apenas mais um ‘hoje’, se não estivesse ali, diante de mim aquele corpo gélido, aquele rosto, e o olhar fechado.
Todos se afastam. Eu não afasto a tristeza de mim.
Gostaria tanto de sentir a presença de alguém em mim, mas não há, não existe nada nem ninguém que venha suprir, então, saciar, ao menos, contemplar o vazio que cabe em mim.
As horas passam. O frio chega. A madrugada.. Ah! Madrugada leva-me contigo! Tira-me do silencio e da morbidez de teus passos lentos.
Passa tempo. Passa-tempo. Passa-tem- po.
O sol nasce, e nunca doeu tanto sabê-lo. Tento pensar, mas não consigo.
O fato é que tenho que agir, apressar-me. Para que? Para ver o corpo adentrar a sepultura, e saber que voltará às fileiras, à terra de onde veio.
A casa bombeia gente. Os pastores cantam. As negras viúvas, que expõem seu negro tecido ao sol quente da manha, que sentem a pele queimar, e não sentem dor alguma, choram.
A sepultura já a espera. Me dói, dói profundamente ver aquela caixa de madeira precisamente detalhada e coberta com flores, cheia com cenas de adeus.
Mas o que me rompe completamente, é saber que aquele corpo que já foi matéria, já foi peso, risos e lembranças, que já foi dança em mim, histórias e lições, que é dono da minha geração,sangue que corre no meu, e que acima de tudo foi um ser humano, adentra aquela cova para findar como saudade e uma plaqueta de ‘Aqui jaz’.
sexta-feira, 16 de março de 2007
o novo mundo ou o novo mundo te reconhece.
Diante de si, e do seu corpo incólume
Menina, admira pequenas curvas
e traços sutis.
Foi-se a infância.
Veio a uma pré corpulência juvenil.
Diante do pequeno coração e mente,
a menina fazia tranças em suas bonecas ruivas.
Atrás do espelho, pequenos olhos se abriam para a
voluptuosidade do despertar;
para corpo semi nu e encharcado de suor;
para a malícia recem surgida.
Carne, mãos, toque, reconhecimento.
As mãos de frágeis contornos corriam pela lingeire
branca e semi transparente, conhecia as curvas,
as depressões, a sudorese, o caminho...
A menina, deixara de ser menina.
Para o mundo: Uma nova mulher.
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
Este engulho entorpecente que me documenta
Já não faz parte das minhas ideologias impraticáveis
Este ódio execrável que indefere nas minhas idealizações
É simplismente o ídilio deste amor rapineiro
domingo, 4 de fevereiro de 2007
Para espantar os meus medos sobre
meus cabelos castanhos
Sobre as lágrimas que tecem esse rosto
Hoje eu quero a sorte
Hoje eu quero a morte
Desejo e fulguraçao
Pra sorrir, pra cantar
e mentir.
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
Busquei inspiração nos velhos jornais
e suas histórias mal remendadas.
Nos sambas de um nota só,
fiz canções de ambivalência.
Para, por fim, escrever este poema
num domingo parado,
repleto de homens calados.
Domingo sem começo nem fim.
Caminho pelos contornos cinzentos,
me corto ao meio,
viajo sem saber se irei chegar...
Nos edificios abandonados: silêncio.
Nas portas: senhoras.
Em mim: emblemas.
"Todos os significados são sutis, são mortais."
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
As semanas incessantemente passavam e a angústia tomava conta dessa que vos fala. Estava eu 'vazia'. Inutil cerebro que se esvaía.
Temia por decepcionar o Sr. Junior, com a minha estranha descautela.
Nenhuma ideia, meu deus. NADAAA!
- É isso!
Eis que me surge em resvalia o conchavo da insensatez e do despertar.
O incomensurável, o complexo, o ilimitado, o completo: NADA!
O meu venerado salvador (Que coisa alguma é!), surge do latim:
Nata de nulla res nata.
[Putz, um nome desse tamanho pra um negoço que num é porra nenhuma. oO]
Esse tal 'nada' é um problema..
Diz as leis físicas que o nada é lugar algum;
onde nao há coisa alguma e nem lugar vazio para caber algo!
É visivel entao, que o conceito do 'nada' exclui, inclusive, essas mesmas leis físicas que tentaram explica-lo.
[Cara, não há física no nada. É a perfeiçao! yeah! :D]
A questao que, entao, me queimava os poucos neuronios que me foram concebidos (E de alguns filosofos também), é como discutimos, falamos, usamos e abusamos de algo que teoricamente 'não existe'?!
E a resposta é que é realmente fantastica.
O nada, na verdade, sem física ou lei, é uma representaçao linguistica daquilo que pensamos que ele seja.
A humanidade luta a vida toda pra conseguir algo impossivel: O tudo.
O homem é incapaz de ser dá conta da importância do nada.
O argentino Ernesto Sabato já dizia: " O nada é a forma mais imaculada de pureza".
[Conseguem ver pequeninos? Enxergam o que acabo de dizer tolos mortais?]
A ideia do nada assusta todo ser humano, pois somente nós somos tao tontos a ponto de termos medo do que nos mesmos criamos.
O nada cientificamente nao existe...
Somente gramatica e a mente humana sao capazes de dar-lhe a vida.
Sacou?
Criemos o nada, usemos, digamos, saciemos a sede da perfeiçao.
O nao-lugar, o nao-existir, o nao-física, a verdadeira Liberdade...
" Tão finitos somos que precisamente não somos capazes de nos colocarmos originariamente diante do nada por decisão e vontades própias. "
Heidegger


